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PSICÓLOGO GEOFILHO FERREIRA MORAES
ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL

Por psicólogo Geofilho Ferreira MOraes
CRP-12/10.011
Data: 16 de junho de 2011

Criei esta página para disponibilizar textos sobre orientação profissional. O material disponível pode ser utilizado tanto por profissionais, estudantes ou pessoas com interesse no assunto.
Escolhi para abrir essa página o texto: Trabalhar pra que? Pois o mesmo ttraz uma discussão histórica sobre o sentido do trabalho em nossas vidas.
Os demais textos relacionados a orientação profissional você pode acessar pelo menu desta página.

KUPSTAS, Márcia (org.). Trabalho em debate. São Paulo: Moderna, 1997.

Trabalhar pra quê?
Maria Lúcia de Arruda Aranha

“Odeio segunda-feira!”
Talvez você já tenha visto as camisetas que trazem estampado o simpático (e preguiçoso) gato Garfield com a frase Odeio segunda-feira”, representando o sentimento quase universal de desânimo diante do trabalho. De fato, enquanto o próximo e desejado fim de semana não chega, a cada final de dia procura-se alento na happyhour, como se a hora feliz só pudesse existir no tempo-após-o-trabalho.
Confirmando esse peso negativo, a própria palavra trabalhar deriva do latim tripaliare, que significa ‘torturar por meio de tripalium” (instrumento formado por três paus, próprio para atar os condenados ou para manter presos os animais difíceis de ferrar). Igualmente, a palavra labor é sinônimo de trabalho, mas também lembra sofrimento, dor, fadiga.
Se admitirmos que a vida humana depende do trabalho, e este causa tanto desprazer, só podemos concluir, por enquanto, pela inevitável infelicidade humana.
QUEM “INVENTOU” O TRABALHO?
Vamos ver se é possível recuperar algo de positivo no trabalho, na tentativa de reverter esse quadro pessimista.
Enquanto as atividades dos animais não variam no tempo, as transformações que os homens realizam na natureza
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“fazem história”, isto é, mudam conforme a época e o lugar. Cada geração humana aprende com as anteriores, aceita certas práticas e modifica outras. Isso é possível porque o homem fala, e ao criar palavras para representar a realidade, torna-se capaz de compreender a herança recebida e de fazer projetos. O que parece pouco, mas não é.
Ao contrário do joão-de-barro, que constrói sua casinha de maneira sempre idêntica, o homem tem antes “uma idéia na cabeça” e à medida que a põe em prática pode mudar de planos e inventar novidades. Por isso são tão diferentes as tendas do índio norte-americano e a oca do brasileiro: as casas dos gregos e dos chineses; as igrejas góticas, como a Notre-Dame de Paris, e as barrocas de Minas e Bahia.
Os homens transformam a natureza pelo trabalho, mediante esforço coletivo: arem a terra, colhem seus frutos, domesticam animais, modificam paisagens, constroem cidades e pontes. E não é só. Criam instituições como a família, o Estado, a escola; obras de pensamento como o mito, a ciência, a arte, a filosofia; estabelecem valores, desde as mais simples regras de convivência social até as leis do Direito.
Além disso, podemos dizer que o homem se faz pelo trabalho. Ou seja, ao mesmo tempo que produz coisas, torna-se humano, constrói a própria subjetividade.
Para exemplificar, imagine-se como vendedor em uma loja. Você precisa conhecer o material que está sendo vendido e os procedimentos de atendimento ao público; aprende a se relacionar com os colegas e com a chefia; exige de si mesmo a superação de dificuldades; ao receber o salário, administra seus gastos e percebe a mudança que essa autonomia financeira provoca nas relações com seus familiares. Enfrenta conflitos, quando seu desempenho é avaliado por critérios injustos ou se ganha menos do que o merecido pelo esforço
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despendido. Também acumula experiência e sente prazer em fazer com facilidade o que antes lhe parecia um desafio intransponível.
Assim, nossa atividade amadurece por meio de colaboração e de antagonismos, por aceitação e por rebeldia. Basta ver que muitas vezes nos empenhamos com afinco no trabalho e em outros momentos decidimos cruzar os braços em greve.
Outro exemplo: para se emancipar, a mulher precisou inicialmente ter acesso ao mercado de trabalho, não só para garantir sua autonomia financeira com relação ao homem, mas também para construir uma nova identidade feminina.
O homem se faz pelo trabalho. Ou seja, ao mesmo tempo que produz coisas, torna-se humano, constrói a própria subjetividade.
 A medida que o trabalho muda o jeito de ser, de pensar e de agir de cada ser humano e de cada cultura, torna-se condição de humanização e instrumento da liberdade, porque é pelo trabalho que o homem viabiliza a realização de seus projetos (e desejos) no mundo, ao mesmo tempo que se torna propriamente humano.
TRABALHANDO “COM A CABEÇA”
Vamos, agora, retomar a idéia de que o trabalho humano supõe um fazer antecedido pelo pensar: ou seja, o homem é o único ser que concebe com antecedência o que produz. E ao produzir, modifica as idéias que, por sua vez, alteram a sua forma de agir e assim por diante, indefinidamente. Portanto, toda prática supõe uma atividade intelectual que a antecede. E vice-versa: toda idéia fecunda nasce da prática.
À medida que a sociedade humana se torna mais complexa, alguns homens passam a se dedicar ao trabalho teórico propriamente dito: é o caso dos cientistas e filósofos, por exemplo. Isso não significa que o trabalhador intelectual despreze a prática, mas sim que se ocupa predominantemente com a problematização dela, refletindo sobre o agir humano, para melhor compreendê-lo.
O trabalho intelectual é, na verdade, um trabalho não-material e, por isso, seu resultado é uma obra de pensamento,
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para sempre vinculada ao seu autor: Einstein concebeu a teoria da relatividade, Platão escreveu A República, Caetano Veloso com pôs “Podres poderes”.
É bem verdade que o livro de um escritor está separado dele, como objeto material produzido por uma editora, da mesma forma que um disco é fabricado por uma gravadora. O conteúdo deles, no entanto, é não-material por representar um conhecimento que interpreta a realidade, seja na busca de algum tipo de compreensão (ciência, filosofia, mito ou senso comum], de valorização (ética) ou de simbolização (arte).
Ainda que por questões práticas seja necessário existir esse tipo de especialização de trabalho material e trabalho intelectual, é importante reforçar que, em última análise, o pensamento totalmente desvinculado da prática é estéril, da mesma forma que a prática separada da teoria se torna “cega”. Nem o filósofo pode permanecer em uma “redoma de vidro”, descuidado dos problemas do seu tempo, nem o trabalho material pode ser separado grosseiramente entre pessoas que só projetam e outras que só executam.
Será que é mesmo dessa forma, integrando pensamento e prática, que o homem tem atuado no mundo? É o que veremos a seguir.

ONDE ESTÁ O PROBLEMA?
Pouquíssimos são os felizardos que põem em prática o que eles mesmos projetaram: dentre as exceções, a primeira lembrança que nos vem é sempre a do artista, ou então de profissionais liberais como advogados, médicos, professores, evidentemente quando têm condições de exercer suas funções com autonomia (o que, é bem verdade, nem sempre acontece...).
De maneira geral, no entanto, prevalece a separação entre concepção e execução, sendo que a grande massa de trabalhadores se encontra, muitas vezes, impedida de pensar criticamente o seu fazer.
Por que acontece esse tipo de coisa?
Na sociedade humana hierarquizada (dividida em “superiores” e “inferiores”), os trabalhadores manuais são excluídos
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do acesso à educação formal e portanto da posse dos bens simbólicos de sua cultura. Por não terem clareza a respeito das causas e dos fins do seu agir, tendem a tornar-se mais facilmente manipuláveis. No outro pólo da sociedade, muitos jovens de família rica se encaminham para a universidade, mesmo quando não têm gosto pelo trabalho intelectual. Certamente, terão grandes chances de ser infelizes na profissão que só aparentemente escolheram.
Dito de outra forma: para obter satisfação na sua atividade, o operário precisaria exercê-la não como um robô, uma marionete, mas como ser humano que pensa, compreende, imagina, inventa e escolhe. Por outro lado, aqueles privilegiados que se ocupam com o trabalho intelectual e detêm a capacidade de gerir os destinos da sociedade e de elaborar interpretações a seu respeito não deveriam estar tão distanciados das atividades concretas do dia-a-dia.
A essa altura da discussão, algum leitor estará compreendendo que não existe contradição entre reconhecer inicialmente que o trabalho é uma atividade tão “detestável”, para em seguida analisá-lo como instrumento de realização humana. Para entender que a “prisão” do trabalho é de fato o que possibilita a liberdade, faremos um breve passeio pela história da humanidade, a fim de examinar como os homens se relacionam ao produzir sua existência. Só assim iremos perceber como se deu a separação entre o pensar e o fazer.
O ARCO E O CESTO
Nas sociedades tribais, as pessoas dividem tarefas de acordo com sua força e capacidade. Os homens caçam com os arcos e as mulheres fazem a coleta com seus cestos. Depois de descobertas as artes da agricultura, além de continuar caçando, os homens derrubam as
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árvores para preparar o terreno das plantações, enquanto as mulheres semeiam e colhem.
É interessante lembrar que no Brasil colonial os portugueses tiveram dificuldades em escravizar os índios e os chamavam de “preguiçosos” sem perceber que o trabalho na comunidade tribal é orientado por outros critérios, diferentes daqueles da sociedade urbanizada, já que eles não produzem excedentes, mas apenas o necessário para viver.
Como a divisão das tarefas se baseia nos termos de cooperação e complementação e não na exploração, os frutos do trabalho pertencem a toda a comunidade.
Por que mudaria esse estado de coisas? Para Rousseau, filósofo do século XVIII, a desigualdade entre os homens surgiu quando alguém, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer “isto é meu!” Nesse momento, o homem estava a um passo de instituir a escravidão!
ÓCIO E NEGÓCIO
Desde as mais antigas civilizações existe divisão entre aqueles que mandam — e portanto pensam, concebem, inventam — e os que só obedecem e executam.
Entre os romanos, o trabalho para sustentar a vida era identificado à palavra negócio, literalmente, “negação do ócio”. O ócio significava para os antigos a forma nobre e digna de ocupar o tempo livre com o lazer, a arte
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do governo e a reflexão. Enquanto isso, as atividades relacionadas diretamente com a sobrevivência material ficavam a cargo dos escravos, cujas funções eram consideradas desprezíveis.
 A primeira vista até poderíamos admitir que seria um desenvolvimento “natural” da civilização, já que alguns teriam melhor capacidade para o pensar, enquanto outros só desempenhariam bem os trabalhos manuais. O olhar mais atento constata, no entanto, que a sociedade descobre mecanismos para manter a divisão, não conforme os talentos, mas sim de acordo com a classe a que cada um pertence.
Um dos instrumentos de manutenção desse estado de coisas é a educação, privilégio daqueles que são proprietários. Não por acaso, a palavra grega scholé, de onde deriva “escola”, significa inicialmente o “lugar do ócio”. Aí as crianças das classes abastadas se ocupam com jogos, ginástica, música e retórica, enquanto as demais, pertencentes aos segmentos pobres, seguem seu “destino” social, sem que se levem em conta as tendências individuais. Nesse caso, ou são excluídas da escola, ou se encaminham para a aprendizagem de um ofício.
Assim se mantém a separação entre trabalho intelectual e trabalho manual, a escola funcionando como um “divisor de águas”.
A ERA DO OLHAR
Vamos dar um salto no tempo e chegar à França do século XVIII. A historiadora francesa contemporânea Michelie Perrot relata o depoimento de um inspetor de manufaturas que descreve uma oficina têxtil de mais ou menos 100 metros de comprimento, pavimentada por lajes e iluminada por cinqüenta janelas com tela branca, tendo no meio do salão um canal azulejado “... onde cada fiandeira vai, em silêncio, tirar a água de que precisa. Essa oficina, à primeira vista, surpreende o visitante
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pela quantidade de pessoas aí empregadas, pela ordem, pela limpeza e pela extrema subordinação que aí reina... Contamos 50 rocas duplas ocupadas por 100 fiandeiras e o mesmo tanto de dobradeiras, tão disciplinadas como tropas”.
Nos trechos em itálico, a historiadora dá destaque a uma novidade na maneira de trabalhar, que se caracteriza por dois modelos disciplinares: o religioso (silêncio) e o militar (hierarquia, disposição em fileiras).
A disciplina é mantida pelos supervisores, que avaliam a qualidade do serviço, evitam brigas e fazem cumprir os severos regulamentos por meio de proibições (não falar alto, não dizer palavrões, não cantar), regras de horários (começa a “tirania” do relógio para entrada, para saída e intervalos) e ainda penalidades como multas, advertências, suspensões, demissões, de acordo com a gravidade da “falta”.
A preocupação com o olhar vigilante se sobressai de maneira decisiva. Os proprietários controlam não só a qualidade da produção, mas verificam também se os operários trabalham o tempo todo, “não se rendendo à preguiça” — afinal, tempo é dinheiro! — e ainda se não “desviam” matéria-prima ou produto acabado.
A nova organização do tempo e do espaço imposta na fábrica não é, porém, um fenômeno isolado. Nos séculos XVII e XVIII formou-se a chamada “sociedade disciplinar”, com o aparecimento de instituições fechadas, voltadas para o controle social, tais como prisões, orfanatos, reformatórios, asilo de miseráveis e vagabundos, hospícios, quartéis e... escolas!
Não por acaso, entre as fábulas de La Fontaine, que viveu na França no século XVII, destaca-se a conhecida A cigarra e a formiga, típica alegoria do elogio ao trabalho e crítica à “vagabundagem” da cigarra, que passara o verão cantando e “se esquecera” de fazer as provisões para o inverno.
Que mudanças estão ocorrendo com a instauração dessa nova ordem?
Até a Idade Média, a riqueza se restringia à posse de terras, com o que predominava na economia o chamado setor primário. Nos séculos XVI e XVII, as atividades mercantis e manufatureiras desenvolveram-se
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a tal ponto que a riqueza passou a significar também a posse do dinheiro e do capital, o que exigiu o desenvolvimento da ciência e da técnica para a ampliação das indústrias, ou seja, do setor secundário. A Revolução Industrial, no século XVIII, é fruto dessas transformações.
Lembrando o que dissemos a propósito do “ócio e negócio”, poderíamos concluir que, finalmente, haveria de ser recuperada a dignidade da atividade manual. Isso porque o proprietário mais importante da nova sociedade deixava de ser o senhor ou o nobre “ocioso”, que sempre desprezara a atividade manual, para ser o burguês, habituado ao trabalho, uma vez que constitui um segmento originado dos antigos servos libertos.
Essa valorização de fato acontece, mas, para além do discurso de exaltação do trabalho, continua a existir a tradicional divisão. Ao se apossar do capital, a burguesia torna- se a classe “que pensa”, justamente porque é ela que decide o que será produzido e como, ao mesmo tempo que os principais pensadores elaboram a concepção burguesa de mundo.
Com isso é mantida a tradicional separação entre o pensar e o fazer. Se são os burgueses que pensam, então quem executa? Para o tipo de trabalho industrial que surge nas cidades, nos barracões transformados em fábricas, delineia-se a nova classe de trabalhadores, não mais formada por escravos ou servos, mas por operários assalariados ou proletários que, privados de meios de produção próprios, são obrigados a vender sua força de trabalho para sobreviver. Aliás, o termo proletário vem de prole, que significa filhos. E isso mesmo. O proletário nada possui, apenas tem filhos. E quantos!
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No século XIX, amontoadas nos arrabaldes das cidades que cresciam de forma incontrolável em condições precárias de saúde e higiene, os operários cumpriam de 14 a 16 horas de atividades diárias, sem garantias trabalhistas, mal remunerados, levando muitas vezes seus filhos pequenos para ajudá-los no trabalho.
O TRABALHO COMO MERCADORIA
Quando fabricamos o que é necessário para a existência humana (casas, roupas, livros), o produto do nosso trabalho tem utilidade vital, tem valor de uso. Na economia capitalista que resulta das revoluções comerciais e industriais, prevalece, no entanto, a lógica do mercado, em que tudo tem um preço no mercado, ou seja, adquire um valor de troca. Nesse contexto, ao vender a sua força de trabalho mediante salário, o operário também se transforma em mercadoria.
Não se pode dizer que esse contrato é equilibrado porque o trabalhador perde mais do que ganha. Primeiro, porque a lógica do mercado dá maior importância ao produto do que ao produtor. Em situações de crise econômica, por exemplo, os empregados são despedidos, os salários arrochados e sempre se pede que as pessoas aguardem pacientes por dias melhores...
Em segundo lugar, porque o trabalhador produz para outro, isto é, a posse do produto lhe escapa. É fácil concluir que, se não é dono do que produz, não pode decidir sobre como e nem o que vai produzir; além de não definir o valor do seu salário, apenas reagindo em situações nas quais a organização sindical se encontra fortalecida.
Sem autonomia, o trabalhador deixa de pertencer a si mesmo, porque tudo que lhe diz respeito foge ao seu controle, ficando, nessas condições, diminuído na qualidade de ser humano que deseja, tem prazer, inventa, imagina, sabe, quer, decide...
O resultado é um alheamento, como se a pessoa ficasse estranha a si própria, comandada por outros. Usamos a palavra alienação para designar essa forma
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de desumanização, que mutila a personalidade do trabalhador.
DE OLHO NO CRONÔMETRO
O poeta brasileiro Mário Quintana, em Das ampulhetas e das clepsidras, diz o seguinte: Antes havia os relógios d’água, antes havia os relógios de areia. O Tempo fazia parte da natureza. Agora é uma abstração — unicamente denunciada por um tic-tac mecânico, como o acionar contínuo de um gatilho numa espécie de roleta-russa. Por isso é que os antigos aceitavam mais naturalmente a morte.
Dialogando com o poeta, podemos acrescentar que somos “feitos” de tempo: sem a memória (passado) e sem os projetos (futuro), o nosso presente deixaria de ser propriamente humano. Por isso, se artificializamos demais os ritmos vitais, nem poderemos “morrer bem”, já que vivemos tão mal!
Ora, vivemos em uma época distante daquela marcada pelos ritmos da natureza, em que se obedecia à cadência do próprio corpo, respeitando as diferenças individuais. Na era capitalista em que eficácia, organização e padronização se transformam em palavras de ordem, todo movimento é controlado externa e artificialmente.
Foi o que aconteceu quando os proprietários das fábricas passaram a buscar maior produtividade recorrendo à idéia de “racionalização” que, em última análise, significa economizar tempo, transformando-o portanto em mercadoria. Como seria possível realizar essa proeza?
O norte-americano Frederick Taylor, no início do século XX, elaborou uma teoria conhecida como taylorismo. Partindo do princípio de que os operários
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são indolentes, gostam, de “fazer cera” e não sabem usar seus gestos de forma econômica, Taylor estabelece um “controle científico”, por meio de medição por cronômetros, a fim de tornar o processo de produção fabril cada vez mais simples e rápido. Com a criação do setor de planejamento responsável pelo “saber como produzir”, fica muito mais nítida a separação entre a concepção e a execução do trabalho, isto é, entre o projeto e a sua realização, entre o pensar e o fazer.
 Com a mesma intenção de aumentar a produtividade, Henry Ford, também norte-americano, introduziu a esteira da “linha de montagem” e o processo de padronização ou estandardização da produção em série na sua fábrica de automóveis,
ainda no início do século XX. O parcelamento das tarefas reduz a atividade de cada um a gestos mínimos, o que aumenta a produção de maneira incrível, mas também transforma o trabalho “em migalhas”, impedindo que o operário tenha acesso ao produto como um todo.
Os trabalhadores resistiram à novidade o quanto puderam. Em 1913, um jornal operário na França, comentando a greve na fábrica de automóveis Renault, dizia: Abaixo a cronometragem! (...) Como funciona? Muito simples! Não permite ao operário pensar; é no escritório de cronometragem que se faz o esforço cerebral necessário em seu lugar. Quanto ao operário, só lhe resta executar rápida e interminavelmente um dos numerosos movimentos elementares nos quais se decompõe cada operação.
Talvez o leitor já tenha visto o clássico filme do cinema mudo Tempos modernos, em que Charles Chaplin, o Carlitos, satiriza esse estado de coisas: um operário, depois de passar o dia apertando parafusos, mesmo na rua, não consegue parar o gesto mecânico.
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A produção em série obriga as fábricas a investir como nunca na publicidade, a fim de provocar artificialmente a “necessidade” da compra. Estava nascendo a sociedade de consumo com seus patrocinadores, anunciantes, facilidades do crediário e campanhas publicitárias veiculadas, naquele tempo, sobretudo pelo rádio.
As fábricas não só lançam um produto na praça, mas também “produzem” o consumidor...
DA FÁBRICA PARA O ESCRITÓRIO
Vamos que ao longo da história a atividade prioritária da economia se deslocou do setor primário (agricultura) para o secundário (indústria). A partir da segunda metade do século XX nota-se outro deslocamento para o setor terciário (de serviços). Ou seja, passa a existir mais trabalhadores nos escritórios do que nas fábricas ou no campo.
Tradicionalmente, o setor de serviços consiste na contabilidade, custos e finanças, departamento de pessoal, turismo, lazer, alimentação, seguros, com seus gerentes, escriturários, bancários, servidores públicos, educadores, funcionários da saúde, enfim, todos que de certa forma se encontram “por trás” da indústria e comércio, dando suporte a essas atividades. Com o desenvolvimento vertiginoso das técnicas de informação e comunicação, sobretudo da informática, dá-se uma expansão nunca vista no setor terciário, que passa a criar uma enorme variedade de novas profissões.
Para se ter idéia do fenômeno, nos EUA, entre 1 980 e 1986, o setor de serviços praticamente dobrou o número de empregados, sendo que no mesmo período ocorreu uma retração na mineração, na agricultura e na indústria manufatureira. No Brasil, em 1 990, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais da metade das pessoas ocupadas se encontrava no setor de serviços.
Outra novidade é que a classe trabalhadora recebe um número cada vez maior de mulheres que, apesar
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de ainda se ocuparem em grande parte com ofícios manuais, já começam a alcançar postos de maior qualificação.
Muito mais está por vir: com a revolução da informática, é possível ocorrer brevemente um movimento de “retorno ao lar”, em que as pessoas poderão trabalhar sem sair de casa, com o uso do computador pessoal, fax, modem, recursos que possibilitam o contato não só com a empresa, mas com qualquer parte do mundo.
NOVOS TEMPOS NA FÁBRICA
Apesar de ter sido suplantada em número de trabalhadores pelo setor de serviços, a indústria continuou a empreender mudanças radicais após a Segunda Guerra Mundial, e mais intensamente a partir das décadas de 70 e 80.
Devido ao enorme salto tecnológico da automação, da robótica, da microeletrônica, que exigem outros padrões de produtividade, começa a prevalecer a tendência de quebrar a rigidez do fordismo (linha de montagem e produção em série) e do taylorismo (grande volume de produção). De forma semelhante aos supermercados, que vão repondo a mercadoria à medida que ela acaba nas prateleiras, a indústria procura manter um “estoque mínimo” e também atender a pedidos pequenos e a eventuais novidades solicitadas.
Tudo isso determina uma mudança fundamental na maneira de trabalhar, com maior flexibilização e polivalência da mão-de-obra, já que o trabalhador precisa aprender a controlar várias máquinas ao mesmo tempo e também ser capaz de
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atuar em equipe, adquirindo maior capacidade de participação e decisão.
Com a reviravolta provocada pela ampliação do setor de serviços e a substituição da rigidez do fordismo pela maior flexibilização, talvez pudéssemos pensar que foram superadas muitas das formas de alienação do trabalho. Ou seja, se o setor de serviços exige uma melhor qualificação do trabalhador e o novo sistema fabril precisa de um operário mais participativo, isso supõe a maior “intelectualização do trabalho”, o que, afinal, estaria levando à superação da clássica divisão entre trabalho intelectual e manual.
Além disso, é preciso reconhecer que houve inúmeros benefícios trabalhistas no decorrer da história: amparo legal, diminuição da jornada de trabalho, direito a férias, aposentadoria, segurança. Diga-se de passagem, essas conquistas não foram alcançadas sem esforço, mas por meio de greves e muitas lutas. Apesar disso, persistem ainda inúmeros problemas e têm surgido outros, decorrentes das novidades implantadas.
Para atender à flutuação do mercado e evitar mão-de-obra ociosa, emprega-se um número sempre menor de trabalhadores e, quando o serviço aperta, são usados os recursos de hora extra e de funcionários temporários, além de regularmente já se contar com a terceirização da produção. Nesse caso, algumas tarefas não essenciais são encomendadas para empresas “terceiras” subcontratadas, o que torna a empresa principal muito mais “enxuta” em suas funções.
A terceirização provocou a descentralização produtiva, deixando de aglutinar os operários e funcionários em uma só empresa, espalhando-os a partir das variadas formas de subcontratação. Dessa forma, as empresas ganham a facilidade de demitir quase sem custos enquanto, por sua vez, os trabalhadores dispersos perdem a coesão e representatividade. Isso pode ser constatado pela queda brutal de adesão aos sindicatos no final da década de 80.
Além disso, se é verdade que a atuação do trabalhador se torna mais participativa, atenuando-se a separação concepção-execução do trabalho e a rígida hierarquia típica do fordismo, não se pode ainda dizer que o
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trabalho deixa de ser alienado. Porque, decidir o que fazer, quanto e quando fazer, em nenhum momento é da competência do trabalhador, mas depende da “lógica do mercado”. Tudo isso, sem falar no risco de desemprego decorrente da automação implantada nas empresas.
Talvez você considere esses aspectos irrelevantes, até exteriores ao próprio processo do trabalho. Pense, no entanto, nesses dados: um operário japonês da Toyota faz tantas horas extras, que é capaz da proeza de cumprir 2,3 mil horas de trabalho, em média, por ano, contra cerca de 1,6 mil de um trabalhador belga em outras fábricas de automóvel!
Com assustadora freqüência, o triste preço dessa façanha é o karoshi, expressão que significa “morte súbita no trabalho”, resultado da busca cada vez maior de produtividade... Bem se vê que continua valendo a fábula da cigarra e da formiga!
A EMANCIPAÇÃO DO TRABALHADOR
Ninguém pode negar que “o trabalho enobrece o homem”. Mas cuidado quando alguém lhe diz isso! Essa frase tem servido, e muito, para a imposição do trabalho degradante, gerador de formas de dependência. Como vimos, a dignidade do trabalho supõe descobrir atividades que permitam o exercício unitário do pensar e do fazer, os dois póos indissociáveis de nossa humanização.
Mais ainda, é preciso que a decisão sobre o que fazer, como fazer, para que fazer seja comandada por critérios verdadeiramente humanos e não exclusivamente econômicos. O homem e sua força de trabalho não são mercadorias e, portanto, a lógica do mercado não pode se sobrepor à ordem da vida.
Em uma sociedade emancipada, o trabalho se tornaria condição de libertação do homem, e não sua prisão. Para tanto, teremos de agir em diversos setores. Indicamos algumas pistas possíveis, deixando o desafio maior por conta da imaginação do leitor.
Nesse momento, já atuamos em um desses campos, ao tomar consciência da situação, analisando o trabalho em seus diversos aspectos e através da história,
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na tentativa de desmistificar a idéia de que todo trabalho é detestável.
Outra forma de mobilização se encontra na luta pela escola democrática, que não exclua os pobres e os trabalhadores manuais e nem esteja dividida em escola acadêmica para os ricos e profissionalizante para o “povão’.
Evidentemente não estamos defendendo o retorno ao mundo tribal ou a abolição da propriedade privada. Nem imaginamos a ausência de conflitos, porque a divergência e o debate estão no coração da cidade livre. Da mesma forma, não nos iludimos com o ideal da sociedade homogênea, pois a comunidade humana é marcada pela diferença e pelo pluralismo. No entanto, defender a expressão livre das diferenças não significa justificar a desigualdade e, por isso, criticamos a má repartição dos bens, sejam eles da terra para quem cultiva ou dos instrumentos do ofício para quem produz.
Lutar politicamente pela implantação efetiva da democracia significa, portanto, defender a igualdade de oportunidades e a superação das diferenças sociais produzidas pela sociedade injusta e hierarquizada.
Além disso, com as possibilidades abertas pela automação, já não seria oportuno diminuir a jornada de trabalho e finalmente despender mais tempo com o lazer e a formação pessoal?
Talvez assim o trabalho estivesse integrado à vida, reconquistando sua dimensão humana. E, certamente, teríamos mais prazer com ele.
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