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PSICÓLOGO GEOFILHO FERREIRA MORAES
HUMANISMO: A TERCEIRA REVOLUÇÃO DA PSICOLOGIA

Por psicólogo Geofilho Ferreira Moraes
CRP-12/10.011
Data: 18 de setembro de 2011

Greening, Thomas C. Psicologia Existencial Humanista. RJ.: Zahar, 1975. Capitulo 2

Teoria Humanista: A Terceira Revolução em Psicologia

O Dr. Floyd Matson foi presidente da Associação de Psicologia Humanista no biênio 1969-70 e parte deste capítulo baseia¬-se na conferência por ele proferida na convenção de 1969 daquela organização. Seus antecedentes incluem um período como repórter e redator de jornal, membro da U.S. Air Corps, analista de imprensa e propaganda a serviço das forças americanas de ocupação no Japão e Administrador-Residente do Programa Universitário no Extremo Oriente da Universidade da Califórnia. Recebeu seus graus de bacharel, mestre e doutor em Filosofia na Universidade da Califórnia, Berkeley, onde lecionou por muitos anos no Departamento de Elocução. É atualmente professor de Estudos Americanos na Universidade do Havaí.
  Além de seu trabalho na Associação de Psicologia Humanista, o Dr. Matson é consultor do Instituto Esalen, do Instituto de Pesquisa Stanford, do Serviço de Testes Educacionais e da Federação Nacional do Cego. Um de seus livros intitula-se: Hope Deferred: Public Welfare and the Blind (Berke1ey: Uni¬versity of California Press). Em 1955, recebeu o Woodrow Wilson Award da Associação Americana de Ciências Políticas por outro livro, Preiudice, War and the Constitution (Berkeley: University of Califórnia Press). Um de seus livros mais conhecidos é The Broken Image, publicado em 1964 (Nova York: Braziller). Organizou depois um volume intitulado Voices of Crisis (Nova York: Odyssey) e, em colaboração com Ashley Montagu, outro volume intitulado  the human Dialogue:Perspectives on communication (Nova York: Free Press) e, em colaboração com Ashley Montagu, outro volume intitulado The Human Dialogue: Pers¬pectives on Communication (Nova York: Free Press). O seu livro mais recente, Being, Becoming ond Behovior (Nova York: Braziller, 1967), é especialmente importante para o humanismo existencial.

  *Teoria Humanista: A Terceira Revolução em Psicologia*(Floyd W. Matson)

Por certo ocorrerá ao leitor atento, algures no decorrer deste livro, que o tão freqüentemente usado termo "Psicologia Humanista" lhe pareça ser aquilo a que os semânticos chamam uma tautologia redundante. Afinal de contas, a Psicologia é a ciência da mente, não é? E a mente não é a propriedade por excelência dos seres humanos? E a Psicologia, portanto, não é toda ela humanista?
  As respostas a essas interrogações resumem-se a uma só palavra: não. A Psicologia é o estudo de mais que a mente e de menos que a mente. É a ciência do comportamento, muito do qual não implica a existência da mente: é "irracional". Tão pouco o comportamento estudado pelos psicólogos é unicamente o de seres humanos; boa parte dele, talvez a maior parte, é o de animais. E quando o objeto de estudo é o comportamento humano, recai, com freqüência, sobre o fisiológico, mais do que sobre o psíquico. Não seria uma excessiva violação da verdade observar que grande parte do que ocorre em Psicologia nada tem de "psicológico". E isso nos leva à razão que gerou a Terceira Revolução - o renascimento do humanismo em Psicologia.
  A Psicologia Humanista tenta explicá-la não como é, mas como devia ser. Procura levar a Psicologia de volta à sua fonte, a psique, onde tudo começou e onde tudo, finalmente, culmina. Mas há mais, do que isso. A Psicologia Humanista. não é apenas o estudo do "ser humano"; é um compromisso com o devir humano.
  Foi um filósofo humanista do nosso tempo, Kurt Riezler (1950), quem disse que a "ciência começa com o respeito pelo  seu objeto de estudo". Lamentavelmente, isso não é verdadeiro a respeito de todos os cientistas, quer nas ciências mais rígidas da natureza como nas ciências mais flexíveis do homem e da mente. Em meu entender, é quase uma característica definidora da Psicologia Behaviorista que ela começa com o desrespeito pelo objeto de estudo e, por conseguinte, leva diretamente ao que Norbert Wiener (1950), ele e próprio um cientista inflexível, chamou o "uso desumano de seres humanos". De qualquer modo, não conheço maior desrespeito pelo sujeito humano que tratá-lo como objeto - a menos que seja para degradar ainda mais esse objeto, fragmentando-o em impulsos, traços, reflexos e outros dispositivos mecânicos. Mas esse é o procedimento do behaviorismo, se não de toda a Psicologia experimental; é um procedimento abertamente admitido, na verdade, triunfantemente proclamado, em nome da Ciência e Verdade, da Objetividade e Rigor, e de tudo o mais que é sacrossanto nessas áreas. E leva em linha reta da torre de marfim ao admirável mundo de Walden Two.
  Estou certo de que todos se lembram desse curioso romance utópico, Walden Two, escrito há mais de 20 anos pelo eminente behaviorista de nossa geração, B. F. Skinner (1948). Seu livro apresentou um cenário tão desolado de engrenagem do comportamento e manipulação da mente, uma tamanha abdicação "condicionada" de autonomia e liberdade por parte de seus dóceis personagens, que muitos leitores supuseram erroneamente, nessa época, tratar-se de uma inteligente e engenhosa metáfora, uma profecia satírica da forma de pesadelo que as coisas adotariam se a sociedade livre relaxasse alguma vez sua defesa vigilante dos valores de liberdade e responsabilidade, sobretudo a liberdade e responsabilidade de escolha. Pois isso foi o que o romance de Skinner abertamente desafIou e amesquinhou; a comunidade paradisíaca que o livro projeta é uma espécie de palácio de cristal (ou de útero com uma janela), dentro do qual a paz e segurança perfeitas habitam para sempre - tranqüilidade sem trauma, prazer sem dor, realização sem luta -  e tudo isso ao preço módico e trivial da liberdade de escolha, do direito -  ¬por assim dizer - de cometer enganos. A chave do reino de Walden Two era o Condicionamento Operante: graças a essa técnica mágica, aplicada a todos os residentes desde o nascimento, a "síndrome de Hamlet" (a angústia de escolha) era eficientemente eliminada.Tal como aquela maravilhosa Senhora no conto de Natal de Dylan Thomas, que "dizia sempre a coisa certa", também as criaturas do romance de Skinner estavam condicionadas para efetuar as escolhas certas automaticamente. Era a certeza instantânea, pelo preço de toda a volição; semelhança dos cães de Pavlov, as pessoas de Skinner só tinham reações e respostas condicionadas ao estímulo da voz dono.
  Reconheçamos que tal paraíso homeostático, como a sociedade sem classes e a cidade celestial, te:m grande efeito sedutor para muitos, especialmente numa época de angústia e de dificuldades.Seduz, sobretudo, as pessoas com baixa tolerância da ambigüidade e alto apreço pela ordem. Creio ter sido Thomas Huxley, o avô de Aldous, quem se confessou tão temeroso do da escolha, com todos os riscos que isso comporta, que se lhe fosse oferecido um mundo de absoluta segurança e certeza, ao preço de abdicar de sua liberdade pessoal, fecharia imediatamente negócio. Ao invés de seu neto, cujo romance futurista fende justamente a tese oposta, o velho Huxley teria certamente gostado da vida estagnada no Pântano Walden de Skinner.
  Permita-me recordar agora uma diferente disposição, tanto existencial como humanista. Trata-se do homem do subterrâneo, de Dostoievsky, esforçando-se por ser ouvido pelas Instituições acima de sua cabeça. Diz ele:
  No fim de contas, não insisto realmente em sofrer ou em prosperar. Insisto no meu capricho e isso está-me sendo garantido, sempre que necessário. O sofrimento seria deslocado em vaudevilles, por exemplo; sei disso. No palácio de cristal é até impensável; o sofrimento significa dúvida, significa negação e que vantagem haveria num palácio de cristal se pudesse existir alguma vida a seu respeito?...Vocês acreditam num edifício de cristal que nunca pode ser destruído; isto é, um edifício onde ninguém poderia botar a língua de fora nem zombar  de outro à socapa. E talvez eu tenha medo desse edifício apenas porque é de cristal, nunca poderá ser destruído e ninguém é capaz de botar a língua de fora, mesmo às escondidas (Dostoievsky, 1945, pág. 152).
Ora, é inegável que existe aí um existencialismo que é um humanismo, como diria Sartre.
  Em minha opinião, existiram três revoluções conceptuais na Psicologia, no decurso do século atual. A primeira delas, a do Behaviorismo, eclodiu com a força de uma revelação por volta de 1913 e abalou os alicerces da Psicologia acadêmica por toda uma geração. O behaviorismo surgiu em reação à excessiva preocupação da Psicologia do século XIX com a consciência e com a introspecção como método de chegar aos dados de atividade mental consciente. Os behavioristas reagiram violentamente. Jogaram fora não só a consciência; mas também todos os recursos da mente. Para eles, a mente era o fantasma na máquina e nenhum behaviorista acreditava em fantasmas. O fundador do movimento, John B. Watson, explicou-se desta maneira numa proclamação que representou uma espécie de Manifesto Behaviorista: "O behaviorista começa por varrer todas as concepções medievais. Retira do seu vocabulário científico todos os termos subjetivos, como sensações, percepção; imagem, desejo; intenção e até pensamento e emoção, tal  como foram subjetivamente definidos" (Watson, 1958, págs. 5-6 ).
  O comportamento manifesto, aquele que podia ser visto e medido, era tudo o que contava. E tudo o que se precisava para explicá-lo era a simples e clássica fórmula de estímulo¬-resposta, à qual se acrescentava agora um refinamento: o reflexo condicionado. Foi esse conceito de condicionamento, recebido dos laboratórios russos de Pavlov e Bechterev, que proporcionou o verdadeiro impulso revolucionário ao movimento behaviorista de Watson. Condicionamento era poder: era controle. Não se tratava meramente de Psicologia objetiva, apesar de todas as suas pretensões científicas; era uma Psicologia aplicada... e aquilo a que se aplicava ou, melhor, contra quem se aplicava era o homem. Disse Watson: "O interesse do behaviorista é mais do que o interesse de um espectador; ele quer controlar as reações do homem, tal como os cientistas físicos querem controlar e manipular outros fenômenos naturais" (Watson, 1958, pág. 11). Assim como o homem consistia, simplesmente, em "uma máquina orgânica montada e pronta para funcionar", também o behaviorista não era um cientista puro, mas um mecânico incapaz de resistir à tentação de mexer com a maquinaria. Ao sublinhar que ciências tais como a Química e a Biologia estavam adquirindo controle sobre seus objetos de estudo, Watson perguntou: "Poderá a Psicologia obter alguma vez esse controle? Poderei fazer que alguém que não receia as serpentes, fique com medo delas e como?" A resposta era clara: E como!
  "Em resumo", disse Watson, "o brado do behaviorista é: Dêem-me o bebê e o meu mundo para criálo e eu fa-lo-ei engatinhar e caminhar; fa-lo-ei trepar e usar as mãos para construir casas ¬de pedra ou madeira; farei dele um ladrão, um pistoleiro ou um toxicômano. A possibilidade de moldá-lo em qualquer direção é quase infinita" (Watson, 1926, pág. 35).
  Isso deve ser bastante para sugerir o caráter geral (e a personalidade autoritária) da Psicologia Behaviorista - a primeira das três revoluções psicológicas que ocorreram em nosso século.
  A segunda revolução foi, é claro, a de Freud. Cumpre assinalar que a psicanálise e o Behaviorismo surgiram mais ou menos ao mesmo tempo, uma década a mais ou a menos, e que esses movimentos eclodiu em reação contra a ênfase sobre a consciência na Psicologia tradicional. À parte essas coincidências, entretanto, havia pouco em comum entre os dois movimentos e muita coisa que os colocava em pólos opostos. Enquanto o Behaviorismo dava todo o destaque ao ambiente externo (aos estímulos recebidos de fora) como fator controlador do comportamento, a Psicanálise enfatizava o ambiente interno, ou os estímulos recebidos de dentro sob a forma de impulsos e instintos. Para Freud, o homem era, sobretudo um instinto e, em particular, de dois instintos primários, o de vida e o de morte (de Eros e Tânatos). Esses dois instintos estavam em conflito, não só entre si, mas também com o mundo, com a cultura. A sociedade baseava-se (disse Freud) na renúncia dos instintos, através do mecanismo de repressão; mais os instintos não se rendiam sem luta. De fato, nunca se renderam; não podiam ser vencidos, apenas temporariamente bloqueados. A vida, portanto, era uma constante alternação entre frustração e agressão. Tanto para a pessoa individual como para a cultura não existia solução permanente nem desfecho feliz; apenas havia compromissos, expedientes, ajustamentos operacionais. Com efeito, o preço da civilização era a neurose em massa  O resultado da necessária supressão dos instintos naturais do homem. Mas, se isso parecia ruim, a alternativa ainda era pior; sempre que as forças repressivas são por um momento relaxadas, declarou Freud, "vemos o homem como um animal selvagem, a quem é estranho o pensamento de poupar os de sua própria espécie” (Freud, 1930, pág. 86).
  Talvez o mais interessante, para não dizer o mais assustador conceito proposto por Freud fosse o de Tânatos, o instinto de morte ou de agressão, que ele considerou um impulso inato e irresistível para a autodestruição ou a destruição de outros. Especialmente significativo nesse sombrio conceito da natureza agressiva do homem é o seu "retorno" em anos recentes, após um longo período de quase total eclipse. A corrente ressurreição do lado sombrio de Freud, de suas meditações e devaneios pessimistas dos últimos anos de vida, diz-nos menos sobre Freud do que sobre a disposição de espírito predominante em nosso próprio tempo. Voltarei a falar disso um pouco mais adiante.
  O principal ponto que quero frisar imediatamente sobre o movimento psicanalítico, em sua forma freudiana, é que ele apresenta uma imagem do homem como "vítima-espectador", na expressão de Gordon Allport, de forças cegas que operam nele e através dele. Apesar de todas as suas diferenças com o Behaviorismo, a teoria freudiana concorda com a imagem fundamental do homem como máquina de estímulo-resposta, embora os estímulos que impõem sua vontade ao ser humano provenham de dentro e não de fora. O determinismo de Freud não era ambiental, como o de Watson, mas psicogenético não obstante, era um determinismo e deixava pouca margem para a espontaneidade, a criatividade, a racionalidade ou a responsabilidade. A fé declarada na razão consciente, subentendida na terapia freudiana (mais do que na teoria freudiana), não o impediu de minimizar insistentemente o papel da razão como determinante real ou potencial da personalidade e conduta, nem, por outro lado, de valorizar ao máximo o ímpeto de forças irracionais que se empenham em impor suas reivindicações tanto de “baixo” (o id) como de “cima” (o superego). No mapa topográfico da mente, elaborado por Freud, o ego (ele mesmo só parcialmente consciente) jamais obtém autonomia plena, mas funciona como uma espécie de estado-tampão entre duas potências rivais, a do instinto e da cultura introjetada  da natureza animal e da criação social.
  Fui deliberadamente severo com Freud, nestes comentários, a fim de enfatizar aqueles aspectos de sua teoria e terapia que, em virtude de seu pessimismo e determinismo, suscitaram no decorrer dos anos a resposta crítica e criativa a que (à falta de melhor termo) poderemos chamar "Psicologia Humanista". Esta nova Psicologia, a terceira revolução, representa uma reação contra o Behaviorismo e a Psicanálise ortodoxa; por esse motivo é que Psicologia Humanista foi denominada a "Terceira Força". Mas talvez a primeira coisa a dizer a seu respeito é que, ao invés dos dois movimentos de pensamento que a precedem e se lhe opõem, a Psicologia Humanista não constitui um corpo único, de teoria, mais uma coleção ou convergência de numerosas diretrizes e escolas de pensamento. Se nada deve ao Behaviorismo, deve muito à Psicanálise embora menos, talvez, ao próprio Freud do que a considerável número de heréticos e desviacionistas freudianos, a começar pelos seus próprios parceiros do Circulo de Viena e culminando nos chamados neofreudianos (na realidade, antefridianos) da segunda geração.
  Com efeito, apesar de muitas divergências entre eles, os que se afastaram, um a um, do lado de Freud compartilhavam numerosos compromissos e conceitos comuns a todo o movimento psicanalítico dissidente. Adler, Jung, Rank, Steqel, Ferenczi  estes associados da primeira hora viram-se impossibilitados de aceitar a teoria do determinismo instintivo de Freud (especificamente, na teoria da libido) e a sua tendência para atribuir a origem de toda a dificuldade e motivação no passado remoto. Esses desviacionistas começaram por atribuir igual ou maior ênfase ao presente (ao aqui-e-agora, à "presença" do paciente) e também ao futuro (a atração da aspiração e do propósito, a meta ou plano de vida do indivíduo). O que isso implicou foi um maior e mais confiante apoio na conscientização da pessoa em análise ou terapia, distinguindo-a de seu inconsciente; um novo respeito pela sua força de vontade e poder da razão, pela sua capacidade de escolha e compreensão.
  Em Adler, essa abordagem assumiu a forma de conversão virtual da sessão de terapia psicanalítica num diálogo ou conversão em nível consciente (o que; é claro, enfureceu Freud, que pensou ter Adler atraiçoado o postulado básico da motivação inconsciente). Em Jung, a nova abordagem tomou a forma de enfatização do que ele chamou o "fator prospectivo", o ímpeto deliberado em oposição ao ímpeto instintivo (e, em particular do instinto erótico), Também assumiu a forma, nos os últimos anos de Jung, de crescente ênfase sobre a compreensão do outro (quer o paciente neurótico, quer o indivíduo normal) em sua identidade singular - uma espécie de compreensão intuitiva e que¬ deu o nome de con-sentimento (einfüblen); Jung distinguia con-sentimento do conhecimento científico, o que levou, finalmente, a advogar o abandono total de compêndios em qualquer atividade de assistência ou cura psicoterapêutica.
  No caso de Otto Rank, outro dos hereges do círculo freudiano original, o desvio adotou a forma de ênfase na vontade existencial da pessoa: a sua capacidade de autodireção e autocontrole.
  O denominador comum nessas várias linhas de teoria e terapia foi, creio eu, o respeito pela pessoa.
o reconhecimento do outro não como um caso, ou um objeto, ou um campo de forças, ou um feixe de instintos, mas como ela mesma. Em termos teóricos, isso significou respeito pelos poderes de criatividade e responsabilidade do ser humano; em termos terapêuticos, significou respeito pelos seus valores, intenções e, sobretudo, sua identidade peculiar.
  Esse reconhecimento do homem em pessoa, em contraste com o homem em geral, vai ao âmago da diferença entre a Psicologia Humanista (em qualquer de suas formas ou escolas) e tais Psicologias científicas como o Behaviorismo. Não só na Psicanálise, mas também em outros campos, uma quantidade crescente de estudantes está sendo levada à inquietante conclusão de que  as características definitivas de um ser humano não podem ser delineadas desde uma "distância psicológica", por assim dizer, mas só têm possibilidade de ser focalizadas mediante a compreensão da perspectiva única do próprio indivíduo.
  Essa ênfase sobre a pessoa humana, sobre o indivíduo em sua totalidade e unicidade, é uma característica central da "Psicologia do Humanismo". Contudo, existe um importante corolário, sem o qual a ênfase personalista seria inadequada e destorcida. Esse corolário é o reconhecimento, para usarmos uma frase de Rank, de que "o eu precisa do outro". Esse reconhecimento é expresso de várias maneiras: para os neofreudianos, assinala a importância do relacionamento no crescimento da personalidade; para os existencialistas, leva a enfatizar a importância dos temas de diálogo, encontro, reunião, intersubjetividade etc. Embora esse reconhecimento seja amplamente compartilhado por psicoterapeutas humanistas, analistas, teóricos da personalidade, psicólogos da percepção e outros, talvez o mais impressionante e sistemático desenvolvimento da idéia tenha sido proporcionado pelos pensadores existencialistas, tanto na área da Psicologia como da filosofia. Existe uma semelhança flagrante na formulação desse relacionamento eu-outro por vários existencialistas. A Filosofia do Diálogo, de Martin Buber, gravitando em torno da relação Eu-Tu, é provavelmente a mais influente e possivelmente a mais profunda (Buber, 1937). (Entre outros efeitos fecundos, deu origem à “Psicologia da Revolução”, a qual encontra seu modelo no encontro terapêutico.) O significado do conceito geral de Buber foi bem descrito por Will HERBERG:
  O termo Eu-Tu assinala uma relação de pessoa a pessoa, de sujeito, uma relação de reciprocidade que envolve “reunião” e “encontro”, ao passo que o temo Eu-Objeto assinala uma relação de pessoa a coisa, de sujeito e objeto, que envolve alguma forma de utilização, de dominação ou controle, mesmo que se trate apenas do chamado conhecimento “objetivo”. A relação Eu-Tu, que Buber designa usualmente por “relação” par excellence, é aquela em que a pessoa só pode entrar com todo o seu ser, como pessoa genuína (Herberg, 1956, pág. 14).
  Segue-se que a relação terapêutica, em seu desenvolvimento ideal, representa um autêntico encontro “à beira abrupta da existência” entre dois seres humanos, um procurando ajuda o outro ajudando. Esse conhecimento mútuo, que nunca é imediato, mas apenas uma possibilidade a ser realizada, abre caminho através das defesas e posturas convencionais dos dois parceiros, a fim de permitir que um deles, como pessoa, chegue até ao outro, como pessoa. O que exige do médico em particular, diz Buber, é que “ele próprio saia de sua protegida superioridade profissional e aceite a situação elementar entre um ser humano solicitado e um que solicita” (Friedman, 1960, pág. 190).
Independentemente de seus usos por psicólogos ou psicanalistas existenciais, como Ludwig Binswanger, Viktor Frankl e Rollo May, o conceito imensamente fértil de “reunião” Eu-Tu, de Buber, encontro paralelos a  reverberações na obra de outros filósofos existenciais, sobretudo aqueles que são comumente citados como existencialistas religiosos ou teólogos existenciais. Para Gabriel Marcel, que chegou independentemente à fórmula Eu-Tu, o sentido de encontro genuíno é veiculado pelo termo “intersubjetividade”, o qual subentende uma comunicação autêntica na ordem de comunhão. Escreveu Marcel: “O fato é que podemos entender-nos a nós mesmos a partir do outro, ou de outros, e só partindo deles;... somente nessa perspectiva é que poderá ser concebida um legítimo amor do eu”(Marcel, 1960, pág. 9). Esse discernimento, muito semelhante ao conceito de Fromn de amor produtivo e auto-realização, implica uma reciprocidade de conhecimento em que o que “Eu sou”, assim como o que “Tu és”, só se tornam conhecidos através da experiência mútua do que "nós somos". Cada comunicante reconhece o outro em si mesmo e reconhece-se a si mesmo no outro.
  Na "teologia terapêutica" de Paul Tillich (1952), essa apreciação geral do papel esclarecedor do encontro é aplicada diretamente à psicoterapia - encarada como a "comunidade de cura". Tillich, em comum com outros existencialistas, acredita que as dificuldades pessoais representadas pela neurose promanam, fundamentalmente, de falhas no relacionamento com outros, resultando em auto-alienação de qualquer contato genuíno com o mundo. Assim, o problema terapêutico central passa a ser o de "aceitação", mais precisamente, de sucessivas fases de aceitação que culminam na aceitação do eu e do mundo dos outros.
  Nessa nova espécie de encontro terapêutico - e eis-nos diante de outro princípio humanista - não existem "sócios comanditários". O terapeuta existencial (isto é, o terapeuta humanista) deixou de ser a tela branca ou o "catalisador silencioso" que era no tempo de Freud; pelo contrário, é um participante ativo com a totalidade do seu ser. Participa não só para ajudar, mas, ainda mais basicamente, para conhecer e compreender. Segundo Tillich, "é preciso participar num eu para saber o que é isso. Pela participação, o eu muda" (Tillich, 952, pág. 124). A inferência é que a espécie de conhecimento essencial à Psicologia e Psicoterapia não pode ser adquirido pela observação indiferente, mas, outrossim, pela observação participante (para usarmos a expressão de Harry Stack Sullivan). Através do desprendimento ou indiferença, talvez seja possível adquirir conhecimentos "úteis"; mas só através da participação é possível obter o conhecimento proveitoso.
  Em qualquer descrição adequada das fontes e forças que alimentaram o movimento da Psicologia Humanista (o que este breve esboço não pretende ser), muito mais precisaria ser dito em reconhecimento das contribuições dadas por cada teórico e terapeuta. Felizmente, dispomos de um certo número de trabalhos abrangentes, entre eles, os livros de James Bugental, Challenges of Humanistic Psyehology (1967), Anthony Sutich e Miles Vich, Readings in Humanistic Psyehology (1969) e o meu próprio The Broken Image (1964), especialmente os Capítulos 6 e 7. Mas até o presente ensaio não poderá deixar de mencionar, pelo menos, alguns dos promotores e agitadores da terceira revolução, notadamente, Abraham Maslow, que merece mais do que qualquer outro ser reconhecido como "pai espiritual” movimento humanista em Psicologia; Gordon Allport, o grande teórico americano da personalidade e herdeiro do manto de William James; Rollo May, que introduziu a abordagem existencial na Psicologia americana e a desenvolveu em termos de originalidade criadora; Carl Rogers, cujo mandato terapêutica de “respeito incondicional" pelo cliente se assemelha à filosofia da preocupação fundamental de Tillich Erich Fromm, o mais influentes dos neofreudianos, que há muito se trasladou da Psicanálise  para os domínios mais altos da Filosofia Social e da Crítica cultural; Henry A. Murray, inspirado mestre e exemplar de humanismo; Charlotte Bühler, que nos tornou a todos cônscios da importância, para a compreensão psicológica, dos valores-metas  pessoais e do curso total de uma vida humana.
  Ao terminar, desejo sugerir algo do potencial ativista da Psicologia Humanista, citando alguns parágrafos da conferência que proferi em 1969, como presidente recém-eleito da Associação da Psicologia Humanista, perante a sua assembléia anual (Matson, 1969):
...Gostaria de propor uma linha de compromisso, e de protesto, ¬que poderíamos adotar perfeitamente como psicólogos humanistas.  Essa linha consiste, como diria Jefferson, em jurar permanente oposição a todas as formas de tirania sobre a mente do homem.  Proponho que nos comprometamos a defender a liberdade psicológica; pois acredito que, muito possivelmente, a maior ameaça que paira sobre a liberdade no mundo de hoje (e de amanhã a ameaça à liberdade mental, que Consiste, em última instância o poder de escolha).
  Essa liberdade é hoje ameaçada por todos os lados. É ameaçada pelo que Herbert Marcuse chamou a "sociedade unidimensional”, a qual procura reduzir as categorias de pensamento e discurso a uma espécie de endosso consensual das diretrizes impostas Ia cultura agressiva e aquisitiva. É ameaçada pela tecnologia sociedade de massa, cultura de massa e comunicação de massa, a qual fabrica (com todo o respeito devido a Marshall McLuhan) um mundo amorfo de prazeres, plásticos, em que os mansos conduzem interminavelmente os mansos para o mar da tranquilidade.
  A liberdade mental também é ameaçada pela revolução biológica e seus corolários psicológicos  não só pelo familiar ninho de Cuco das lobotomias e tratamentos de choque, sobre o qual ninguém pode voar, mas pelos iminentes avanços da "cirurgia estética" e intervenções afins, os quais prometem tornar viável a reciclagem reprogramação do mecanismo cerebral.
  Talvez de modo mais crítico de todos, a nossa liberdade psicológica é ameaçada pela falta de coragem e de fibra; pela nossa imcapacidade para viver de acordo (e viver além de) o dogma democrático, o qual assenta na fé na capacidade do ser humano comum para conduzir sua própria vida, abrir o seu próprio caminho, se ele mesmo, conhecer-se e tornar-se mais ele mesmo. Essa falta de coragem predomina no campo da educação é uma espécie de doença ocupacional do trabalho social, em que a pessoa assistida passa a ser um cliente que é tratado como paciente e diagnosticado como incurável. E isso é uma característica generalizada na paisagem na psicologia acadêmica e ciência do comportamento, em tantos aspectos deprimentes que seria necessário um livro (que já escrevi) para enumerá-los todos.
  Mas citarei apenas um dos aspectos em que essa falta de coragem se manifesta no estudo do homem. A velha doutrina reacionária do Pecado Original, da depravação inata, está desfrutando nos últimos tempos uma ressurreição muito popular e em larga escala. Assume a forma da hipótese de agressão como dotação instintiva fixa do homem  como se fosse uma mancha genética no sangue, uma sombria mácula na dupla hélice de cada um de nós. A alegada descoberta ou redescoberta desse instinto assassino está sendo saudada nos clubes do livro e em revistas populares como se fosse a bênção final, a boa nova derradeira no caminho da redenção do homem. Como explicar a popularidade dessa tese sobriamente pessimista? Como explicar o status de best-seller conquistado por livros como On Agression (1966), de Lorenz; The Territorial Imperative (1966) e African Genesis (1961). de Ardrey; e The Naked Ape (1967), de Desmond Morris?
  Creio que a resposta é clara: uma falta de coragem em massa. Nada poderia ser melhor calculado para nos livrar do incômodo anzol da responsabilidade pessoal, do autodomínio e da autodeterminação, do que essa doutrina de nossas propensões inatas para a agressividade. É por isso que guerreamos; é por isso que odiamos; é por isso que não podemos amar-nos uns aos outros nem a nós mesmos. As pessoas não prestam  e acabou-se.
  Bem, não acredito que os psicólogos humanistas aceitem essa armadilha. Proponho, por conseguinte, que lancemos todo o peso do nosso movimento, a totalidade da Terceira Força, contra essa e todas as outras ameaças à liberdade mental e à autonomia da pessoa. Tornemo-nos a consciência ativa da fraternidade psicológica, buscando, expondo e condenando toda e cada força desumanizaste, despersonalizante e desmoralizante que nos empurraria cada vez mais para o caminho do Admirável Mundo Novo e da sociedade tecnocrática  esse laboratório dos sonhos do behaviorista e dos pesadelos do humanista.
  Pois nesse caminho está não apenas o fim da liberdade psicológica, mas também a morte da humanidade.