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PSICÓLOGO GEOFILHO FERREIRA MORAES
QUE PROFISSIONAL QUEREMOS

Por psicólogo Geofilho Ferreira MOraes
CRP-12/10.011
Data: 20 de maio de 2011

BRANCO, M.T. Que profissional queremos formar? Revista Ciência e profissão, 1998, 18 (3), 28-35.

Que Profissional Queremos Formar?

O mundo está em plena efervescência. Paradigmas científicos são rompidos, o desemprego aumenta, as pessoas adoecem no trabalho, mudam de carreira, enfim,
vão se estruturando e sendo impactadas por estes novos processos produtivos. O objetivo do presente trabalho é discutir esses novos desafios postos à Psicologia
por esse contexto de mudanças.

A formação do psicólogo nos remete a três destes aspectos, será analisado nas suas questões importantes:
 a realidade social que especificidades, mas eles
se interpenetrarão, vem demandando a atuação deste inevitavelmente, no decorrer da exposição do profissional;

a diversidade teórica e assunto metodológico
da psicologia;
 e a situação do ensino universitário no Brasil. Realidade Social e Demanda pelo Trabalho do Psicólogo. Não há como refletir sobre o profissional
que se pretende formar sem se analisar a sociedade brasileira apresenta, hoje, sociedade onde ele atuará, a atividade que algumas características que devem
ser exercerá e a agência que o educará. Cada um considerado na reflexão que pretendemos no seu processo de produção social há uma divisão do trabalho que
separa os indivíduos em classes que se apropriam desigualmente do produto do trabalho total. O conceito de classes não pressupõe grupos estanques de sujeitos,
mas antagonismo e interdependência, em que uma classe só existe em oposição a outra. As relações sociais são essencialmente heterogêneas, de dominação
e conflituosas; não pode ser analisada fora do contexto internacional, onde o Brasil tem mantido posição de subordinação econômica, social e cultural em
relação ao grande capital; separa trabalho intelectual de trabalho manual, como em qualquer sociedade capitalista, que provoca uma cisão no processo de
conhecimento entre teoria e prática; promove acesso insuficiente da maioria da população ao ensino formal; sua história gerou uma experiência democrática
frágil, com a participação política da classe trabalhadora constantemente cerceada, a sociedade civil se organizando lentamente, determinando uma consciência
social mais facilmente ideologizada pelos meios de comunicação de massa; apresenta uma das maiores taxas de mortalidade infantil do mundo e índices elevados
de subnutrição e desnutrição; trabalho infantil precoce, que aumenta a cada dia, e um número, também crescente, de crianças e adolescentes que vivem nas
e das ruas; formas institucionalizadas de violência cotidiana - contra a criança, os velhos, as mulheres, os negros, os homossexuais, os desabrigados, etc;
"quase cem milhões de pessoas que vivem na pobreza. Destas, quase 60 milhões sobrevivem em condições de miséria e nada menos do que 20 milhões em total
indigência".

NO Brasil mostra uma qualidade de vida pior à dos mais pobres países do mundo: violências sob todas as formas, mortalidade infantil, desnutrição, baixo
nível de escolaridade, péssimas condições habitacionais, elevado grau de endividamento, aviltamento monetário, desarticulação social, corrupção, amplo
processo de prostituição de todos os tipos, inclusive infantil, falta de solidariedade nacional, vandalismo, falta de confiança no futuro (...) A quase
totalidade da população na miséria e uma minoria rica assustada. Uma sociedade violenta e instável em todos os aspectos. A pobreza não é um fenômeno novo.
Mas agora ela é fabricada, como conseqüência das decisões de modernização. A crise urbana foi induzida pela ênfase na industrialização; a modernização
agrícola agravou a fome; a desigualdade social deriva das decisões econômicas para viabilizar a modernização “.

O quadro é de violência e miséria, porém, na medida que a sociedade é contraditória, mesmo que a exacerbação das desigualdades gere alternativas desagregadoras,
infelicidade humana, perda da esperança, medo, massificação, enrijecimento dos valores, falta de reciprocidade, gera, também, formas de resistência cultural,
de organizações populares, associações, sindicatos etc. Há sempre movimentos contra-hegemônicos, que permitem, apesar do instituído, que singularidades
e espaços de autogestão coletiva se produzam, no trabalho cotidiano do instituinte. Qual a demanda pelo psicólogo nesse cenário nacional? Pressupõe-se
que a afetividade deva estar fluindo com dificuldade nas relações hierarquizadas experimentadas pelos indivíduos nos seus ambientes de trabalho, nas escolas,
nas famílias, nos hospitais, nos meios de transporte, nas ruas etc. Porém, as instituições esperam comportamentos que mantenham um equilíbrio “e uma produtividade
adequada à reprodução das relações sociais de produção. Se a saúde mental for considerada como um estado de bem-estar" de sujeitos singulares, conquistado
nas suas relações objetivas, quem demandaria a atuação do psicólogo na sociedade? Quem definiria o que é bem-estar “? E em que situações seria possível
ser sujeito, em uma sociedade que mercantiliza até as emoções?”.

A concepção de saúde mental adotada por grande parte dos psicólogos isola o indivíduo de sua realidade histórico-social, considerando seus problemas como
frutos de um funcionamento interno ou de um condicionamento extremo. Demonstram uma visão dicotomizada da realidade que irá orientar suas práticas. Macedo
(1984, p.13) chamou o modelo de atuação que advém dessas concepções de "clínico tradicional", no qual as atividades básicas são o diagnóstico, a terapia,
o aconselhamento e o exame psicotécnico. A autora revela o sentido das demandas pelo trabalho do psicólogo no contexto das relações sociais: "temos de
um lado as classes mais altas, 'intelectualizadas e narcisistas' (Monteiro, 1993) cuja demanda sempre maior por atendimento psicológico, principalmente
terapêutico, reflete uma cultura em que a terapia seria uma saída viável para a resolução dos conflitos interiores causados por uma sociedade tecnológica,
desafiadora, competitiva e destituída de espaço para trocas afetivas entre as pessoas, encerrando-as em si mesmas e na sua solidão; de outro lado temos
as classes menos favorecidas, para as quais os problemas são conseqüências inevitáveis das circunstâncias externas para cuja resolução seria destituída
de significado uma intervenção psicológica."

Na realidade, o tratamento psicológico é dirigido principalmente à burguesia nos consultórios particulares e às classes populares resta o atendimento psiquiátrico,
como corretivo para o que é considerado um comportamento "anormal" o trabalho de Patto (1987), que faz uma retrospectiva da história da psicologia, ressaltando
o caso da psicologia escolar, observa que lia psicologia nasce com a marca de uma demanda: a de prover conceitos e instrumentos 'científicos' de medida
que garantam a adaptação dos indivíduos a nova ordem social" (a capitalista).

O resultado destas e outras pesquisas demonstram que a sociedade tem demandado o psicólogo para atividades de ajustamento social, para aumento da eficiência
dos indivíduos e do sistema. Surge daí, a preocupação com os instrumentos de medida que servirão para classificar, selecionar, reeducar e tratar. Ao responder
a esse tipo de demanda, o psicólogo se compromete com a reprodução das relações instituídas e funciona como legitimador da desumanização do homem.

No entanto, observa-se que, paralelamente à demanda social tradicional segmentada em áreas - escolar, organizacional e clínica -tem ocorrido, no Brasil
pós-ditadura militar, um processo novo de discussão sobre os modelos de atuação psicológica, realizado por algumas gestões do Conselho Federal de Psicologia
e conselhos Regionais, Associações e Sindicatos da categoria em vários pontos do país e o Movimento Nacional de Saúde Mental. A luta antimanicomial, a
participação dos psicólogos nas unidades de saúde, nos trabalhos sociais e comunitários e a assessoria a grupos populares, demonstram que novas possibilidades
de atuação têm sido criadas, buscando responder a outros tipos de demanda anteriormente negada.

Na medida que se rompe com as amarras da demanda tradicional, o espaço de atuação do psicólogo se amplia, novos empregos se abrem e o profissional necessita
de uma visão de totalidade, capacidade de refazer a prática e não simplesmente trajá-la com novas cores recobrindo um mesmo conteúdo.

Diversidade Teórica e Metodológica da Psicologia

A diversidade teórico-metodológica da psicologia a fragmenta em concepções e práticas inconciliáveis. Várias tentativas de unificação e ecletismo têm sido
realizadas sem sucesso, do ponto de vista da consistência teórica. As partes irredutíveis e aparentemente arbitrárias da psicologia revelam, se contextualizadas,
diferentes visões de homem e de sociedade possíveis em determinados momentos históricos. Patto (op.cit, p.87) considera a psicologia como "pseudociência"
e utiliza uma citação de Deleuze (1972, p.47) para explicar que ela “longe de romper com a ideologia dominante, traz a esta última o apoio de seu aparato
técnico e seu arcabouço” teórico".

A saída que muitos psicólogos encontram para fugir à crítica e ao confronto de posições é a do fechamento dogmático nos seus referenciais teórico-práticos.

Existem várias psicologias, cada qual com seu desenvolvimento específico e discussões internas que merecem aprofundamentos, revisões e isolá-las ou unificá-las
são tarefas que fragilizam a construção da ciência psicologia. Torna-se urgente conhecer a história da psicologia, com suas implicações políticas, ideológicas
e teóricas para desvendar suas crises no âmbito da vida social e cultural. Figueiredo (1991, p.206) diz: “Uma história da psicologia (entendida como história
dos conflitos, de suas origens na vida da sociedade e da cultura, de suas implicações teóricas, ideológicas e políticas), ainda por fazer, teria função
essencial na formação do psicólogo e deveria ser contemplada em todos os currículos de graduação. Ela seria um instrumento de auto reflexão e auto conhecimento
que contribuísse tanto para esclarecer ao futuro profissional o verdadeiro significado da dispersão e desconexão das disciplinas e orientações teóricas
que enfrentou durante o curso, como fazê-lo entender o real alcance de suas opções. Se as diferentes matrizes refletem e expressam diferentes formas de
relações humanas, a opção individual entre correntes psicológicas é, em última instância”, uma questão ética e não científica, mas não absolutamente uma
questão para qual só existam soluções irracionais e arbitrárias".

Constituir essa história é ponto de partida para uma rê-leitura da psicologia que contemple divergências.No entanto, o que vem ocorrendo é uma dispersão
cada vez maior, com uma corrida alarmante dos psicólogos para alternativas pouco fundamentadas, que expressam, por um lado, desprezo pelo que aprenderam
nas universidades, e por outro lado, uma busca de formas de oferecer ajuda psicológica que pareçam mais eficazes. Em uma sociedade em que o ser humano
sofre restrições constantes a sua singularizarão, práticas que o levem a um mergulho em si mesmo podem trazer satisfação imediata, sensações de encontro
com a felicidade e com fragmentos perdidos na sua história de vida. Porém, a totalidade almejada é negada nas relações concretas e o mergulho em um si
mesmo descolado do mundo engana-o, aliena-o, deixando-o no mesmo lugar, sem transformar o real, que faz parte da constituição da sua subjetividade; entregue
ao instituído, viverá abstratamente sua "transformação pessoal". Muitas destas práticas alienantes fazem parte, hoje, do exercício profissional de inúmeros
psicólogos.

Não é somente o ensino de uma história que permita a crítica às diferentes psicologias que fará esta plural idade de concepções avançar como ciência e profissão.
Além disso, a formação do psicólogo deve propiciar a produção do conhecimento no processo de aprender, transformando a realidade, sistematizando e trocando
idéias, através de materiais escritos pelos estudantes que gerem polêmica, re-estudos, novas elaborações. Teorias e práticas devem se articular. As implicações
políticas, culturais e ideológicas das práticas devem se constituir como pontos de reflexão. Os professores devem se expor, explicitando o fundamento daquilo
que ensinam e a inconsistência das teorias que estudam. Mais do que em qualquer campo do conhecimento, os especialistas precisam desenvolver uma visão
de totalidade e romper com os limites de suas áreas, problema sério na psicologia. Patto (op. cit, p.95) recupera a história da constituição da psicologia
nas três áreas tradicionais - escolar, clínica e organizacional - por onde se formam os especialistas, demonstrando como essa divisão foi fruto da demanda
social das elites dirigentes:

"(...) uma sociedade que necessitava (e ainda necessita) de instrumentos para selecionar, orientar, adaptar e racionalizar (...) No território da terapia
as coisas não se passam de modo muito diferente; seu objetivo é a cura, simples processo de adaptação a normas que mantém o status que e que têm como valores
supremos a saúde, a maturidade e o êxito, assimilando amor e produtividade e baseando os valores culturais numa vasta harmonia que unicamente o indivíduo
" poderia romper".

A divisão em áreas aumenta a fragmentação do espaço psicológico, contribui para que os diferentes profissionais permaneçam surdos às demais tarefas que
não se referem aos seus claustros. A Universidade reproduz essa circunstância e não reinventa uma formação sem áreas, onde o psicólogo não se defina por
seu local de trabalho, mas por ser um profissional que ofereça ajuda psicológica em qualquer ambiente onde o homem atue. Trata-se de conhecer a atividade
humana na sua totalidade, na sua historicidade, apreendendo a dimensão pessoal na dinâmica das relações sociais. Qual é o papel de um profissional de saúde
mental? O que seria saúde mental? E por que estas áreas na psicologia? Quem as definiu? Por que repetimos incessantemente essa divisão? O que estamos
legitimando?

Ensino Universitário no Brasil

Conforme Fernandes (1989), a Universidade vive, há algum tempo, uma crise profunda, que não se expressa somente no desmantelamento de sua infra-estrutura
material e desvalorização dos recursos humanos, mas também, na não produção do conhecimento, que ele chamou de "crise do saber". A reforma universitária
de 1968, no Brasil, direcionou a educação rumo a tecnocracia, para satisfazer a necessidade de implementar uma modernização que respondesse aos interesses
do capital internacional. Importou-se "modos de fazer, viver e pensar modernos" que conviveram com estruturas de poder arcaicas e riqueza concentrada,
determinando aumento da miséria da maioria dos brasileiros. A Universidade e instituições de pesquisa tiveram que oferecer suporte para esta modernização
conservadora e "dolorosa", como foi chamada por Silva (1982). Ainda hoje, o neoliberalismo dá continuidade aos mesmos planos, embora em nova conjuntura
política.

O modelo de Universidade traçado visa a formação de tecnocratas bem preparados para as exigências de um mercado de trabalho escasso e competitivo. Quaisquer
ações que tentem romper com essa perspectiva sofrem inúmeras dificuldades, tanto do ponto de vista dos recursos materiais, como administrativos. “

A departamentalização dos cursos propiciou a formação de verdadeiros "feudos", dificultando o trabalho interdisciplinar de pesquisa e extensão. Geralmente,
o cenário que se encontra é de cada professor realizando seu próprio trabalho individual, respondendo a interesses e relações pessoais, sem que este possa
promover polêmica, reflexão e produção de um conhecimento coletivo.

Na formação do psicólogo, dada a diversidade teórica e metodológica da psicologia, a situação da Universidade cria obstáculos ainda mais difíceis de se
transpor. A ciência psicológica, no estágio atual, exige pesquisa, extensão e ensino reflexivos, críticos e engajados. Como atender a esta exigência na
formação do psicólogo?

Síntese dos Três Aspectos

O psicólogo que recebe o seu diploma após '' freqüentar, no mínimo, cinco anos de aulas na Universidade, enfrenta: dispersão no campo do saber psicológico;
fragmentação no processo de trabalho social realizado nas instituições, além de falta de recursos materiais; ilusão de uma pseudo-autonomia do profissional
liberal, almejada pela maioria no sonho do consultório particular; competição acirrada entre os próprios psicólogos, na corrida por emprego e posições
nas instituições que os demandam e que são escassas; demanda por uma função adaptativa, corretiva re-educadora que lhe exigirá clareza do seu papel como
psicólogo.

Várias pesquisas têm constatado que o psicólogo quando não trabalha em consultório tem grande dificuldade em definir sua identidade. Mello (1975) diz que
muitos psicólogos não sabem caracterizar O que seria uma atividade clínica e encontram confirmação do resultado de sua pesquisa em Carvalho (1983), apresentados
por Macedo (1984). Carvalho demonstrou que em muitas circunstâncias onde o psicólogo estava registrado como tal, ele não sabia classificar-se em nenhuma
área e considerava ineficientes as técnicas que aprendeu na Universidade para o contexto onde atuava. O Sludo Sobre A Inserção dos Psicólogos nas Unidades
Básicas de Saúde, realizado pelo Conselho Regional de Psicologia 06, demonstrou que, além da dificuldade de definir o seu papel, recriar técnicas e encontrar
as referências teóricos adequados, o psicólogo, assim como outros profissionais das unidades básicas de saúde, não sabem trabalhar em equipe, compartimentando
as ações executadas junto a um mesmo sujeito.

Estes estudos nos fazem acreditar que o trabalho dos psicólogos, na maior parte dos locais onde atuam, deve estar ocorrendo de acordo com o que se espera
deles: ações normalizadoras em relação à criança, ao adolescente, ao velho, ao louco e ao pobre que o impedirá de "escutar" a fala do outro e "enxergá-lo"
como sujeito concreto, com uma história individual e social. Neste sentido, eles estariam atendendo ao mercado de trabalho que ainda requisita um profissional
que remende os "malfeitos" da organização social. Esta constatação nos aponta que há necessidade de voltar à formação dos psicólogos não para atender às
demandas do mercado, mas para um compromisso ético com o ser humano. Os serviços de promoção da saúde não podem ser vistos como uma mercadoria a ser consumida
e os profissionais que atuam nesse campo não devem estar respondendo a relações mercadológicas.

Como diz Freire (1975), o compromisso de qualquer profissional com a sociedade é inevitável. Porém a sociedade não é homogênea, voltada para interesses
comuns e para o "bem-estar” de todos. Assim, não há neutralidade possível. É preciso explicitar o compromisso -"com o quê?", "com quem"?

Que tipo de profissional queremos formar nos cursos de psicologia? Comprometido com a mudança ou com a legitimação das relações sociais? Especialista tecnocrata
ou conhecedor crítico das teorias psicológicas, produtor de conhecimento e agente de mudanças? Comprometido com o avanço da ciência psicológica ou amarrada
ao dogmatismo de uma ou outra corrente do pensamento constituído? Preso às áreas específicas de atuação ou capaz de lidar com questões de saúde mental
dentro de uma visão de totalidade da atividade humana?

Considerações Finais

Não deve haver dúvida de que o profissional que pretendemos formar se comprometerá com a promoção da saúde. Para tal, não poderá legitimar as relações de
violência instituídas na sociedade. A saúde envolve eliminação da fome, da miséria, da subnutrição, da ignorância e de qualquer forma de opressão. O compromisso
do psicólogo só poderá ser com a mudança social.

Ele não deve ser um especialista, embora um estudioso permanente das situações nas quais sua prática esteja implicada; deve desenvolver uma visão de totalidade,
perceber as contradições inerentes a sua prática, ajudando aos grupos, indivíduos e instituições a eliminarem os processos de desumanização e alienações
responsáveis pelo sofrimento psíquico.

A formação do psicólogo deve possibilitar o engajamento do futuro profissional na sociedade, além da re-elaboração do conhecimento constituído. Para uma
reformulação dos currículos dos cursos de psicologia não podemos pensar, apenas, numa nova listagem de conteúdos a serem ministrados. Devemos encontrar
uma definição de finalidades a partir das quais empreenderemos um trabalho contínuo de planejamento conjunto das atividades pedagógicas. Não devemos eliminar
as diferenças teóricas e metodológicas, apesar das finalidades comuns. O trabalho acadêmico coletivo deve explicitar e aprofundar as divergências. Além
disso, a exigência por uma articulação em “e teoria e prática não poderá significar ativismo que diminua o estudo das teorias. Precisamos abarcar, de forma
profunda, todas as matrizes do pensamento psicológico, em uma dinâmica de trabalho que permita o confronto de pontos de vista e projetos que reúnam vários
campos do saber. A tradicional grade curricular por disciplinas, que fragmenta o conhecimento e o faz parecer produzido fora da vida, deve ser superada.
A nova organização do currículo deve provocar a busca de soluções para problemas concretos e gerar a compreensão de que o conhecimento se constrói a partir
das indagações que o ser humano se faz e procura responder. Quais os problemas que a psicologia tem se proposto responder e quais procedimentos teórico-práticos
têm se apresentado a ‘partir de seus esforços? Quais os pontos que permanecem obscuros a partir das elaborações já realizadas, ou que novas dúvidas puderam
levantar? Que problemas a realidade brasileira coloca”. Hoje”. para a psicologia e para os psicólogos? Que elementos podem buscar em outros campos da ciência,
da filosofia, das artes e do saber popular para problematizar o próprio campo constituído pela psicologia?